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1 de abril de 2015

O fio vermelho do destino

 

A lenda Akai Ito ( O fio vermelho do destino) teve origem na China, porém,  existem varias versões desta lenda. As mais conhecidas, no entanto, são as versões chinesa e japonesa.  Mas, o que difere uma da outra é que o barbante vermelho na lenda chinesa os deuses prenderam ao redor do tornozelo de um homem e de uma mulher que eram destinados a serem almas gêmeas. Segundo a lenda, a divindade a cargo do " fio " acredita-se ser Xia Lao Yue, mais conhecido como Yuelao ( um deus lunar casamenteiro, tipo o Santo Antonio no Brasil).Enquanto que na versão japonesa o mesmo barbante é amarrado no dedo mindinho, sendo uma ligação especial que representa o amor eterno. Mas, existem outras lendas a respeito desse assunto.


Versão Chinesa

Um homem estava descendo a montanha para visitar a mulher com quem ia casar, quando um senhor apareceu na sua frente e disse:
''Sendo do Meikai, posso ver que seu fio vermelho liga a outra pessoa. Você não está ligado a aquela que está indo encontrar. A pessoa pelo qual está ligado é aquele bebê.'' - disse isso apontando para um bebê que estava deitado no colo de sua mãe. 
O homem ficou louco de ódio, porque amava sua noiva e mandou o seu criado matar o bebê, ateando fogo na casa em que o mesmo morava.
Porém como o homem e a sua noiva não estavam conectados, ele foi muito infeliz durante todo casamento, até que vem a se tornar viúvo. Haviam se passado vários anos e quando voltou a subir a montanha encontrou uma linda mulher e sem saberem o que tinham acontecido no passado, os dois se apaixonaram perdidamente e se casaram, descobrindo a felicidade que nunca teve. Por se amarem, e para não ter segredo o homem contou tudo o que havia feito no seu passado.
A jovem começou a chorar, e entre soluços disse:
- Aquela garotinha era eu, perdi tudo, meus pais, irmãos... Mas minha mãe me embrulhou em um pano molhado e me salvou. A verdade era muito dolorosa e resolveram se separar. 
O velho na verdade era um deus conhecido como Xia Lao Yue, ficou muito triste com os dois, porque o amor era sincero.
Então, amarrou no tornozelo do homem e da jovem um fio vermelho, na esperança de que os dois se encontrem novamente...

 

Versão Japonesa

Debaixo da escura noite, iluminada apenas pela brilhante lua cheia caminhava, apressadamente, para a sua casa um pequeno menino. Enquanto caminhava encontrou um velho, sentado por baixo de uma árvore observando a grande lua.

- Boa noite rapaz! - Disse-lhe humildemente o velho que, na realidade, era o Deus Yuelão.

O menino nunca antes vira o velho, por isso, continuou o seu caminhou sem lhe prestar atenção.

- Sabes! - continuou o velho. - Devias começar a preparar-te para o teu destino. Já não falta muito para te tornares um homem e, como todos os todos os homens, precisas de arranjar uma esposa.

O menino era ainda muito jovem e não mostrava nenhum interesse em se casar.

-Eu nunca me vou casar. - Disse amargamente.

- Isso só o destino pode dizer. E sabes o que ele diz agora?

Mesmo não estando a gostar muito da conversa o menino acenou que não com a cabeça.

-Ele diz que te casarás com a jovem que estiver do outro lado da corda que amarrei ao teu tornozelo.

Pela primeira vez,o menino conseguiu ver a corda vermelha amarrada ao seu dedo mindinho, que se estendia no chão formando um estreito caminho cor de sangue. Na outra ponta da corda estava uma jovem moça, sentada à porta da sua casa, observando o céu escuro da noite. O menino não queria acreditar no que os seus olhos viam, pegou então numa pedra e atirou-a ao rosto menina, pensando que aquilo seria o suficiente para a manter longe dele para sempre. De seguida, limpou as mãos sujas de terra aos calções e correu, como nunca antes havia corrido, passando por tortuosos caminhos, deixando completamente emaranhada a corda vermelha que continuava amarrada ao seu tornozelo, mas que por algum motivo, já não conseguia ver.
Passaram-se anos, e o menino tinha-se transformado num belo homem cobiçado por muitas mulheres. Sabendo que tinha de casar com uma daquelas moças para honrar a sua família, dando-lhe continuidade, mas a verdade, é que nenhuma daquelas mulheres lhe interessava. Na aldeia diziam que mesmo que procurassem pelo mundo inteiro jamais encontrariam uma dama que lhe agradasse.
O menino, agora já homem, esquecido da conversa que tinha tido com o velho, caminhava debaixo da lua cheia, pensando que talvez nunca conseguisse encontrar o seu par ideal. Foi então que, passando por uma das casas da região, viu a silhueta de uma mulher. Pela primeira vez, sentiu que aquela era a mulher com quem queria passar o resto da vida, mesmo que dela conhecesse apenas a sua silhueta.
Essa jovem, por quem se apaixonara era conhecida como sendo uma das mais belas mulheres da vila, contudo raramente saia de casa por ter vergonha do seu rosto.
No tão esperado dia do casamento, a jovem não mostrou o rosto, mantendo-o escondido por baixo de um grosso véu. No entanto, no fim da cerimônia, quando se encontravam sozinhos, o homem não conseguiu esconder a curiosidade e perguntou-lhe por que motivo escondia o rosto.

-Ninguém o quereria ver. É feio e está marcado por uma horrível cicatriz. - respondeu.- Quando era pequena um rapaz atirou-me um pedra ao rosto, deixando uma cicatriz sobre a minha sobrancelha.

Aquelas palavras trouxeram-lhe à memória aquela noite. A noite em que tinha falado com o velho, o Deus Yuelao. E com um suave movimento retirou o véu à sua esposa, deparando-se com a mais bela mulher que alguma vez havia visto. Nesse dia o jovem percebeu que não adianta fugir, pois o destino do Akai Ito será sempre cumprido.

Akai Ito, que em japonês significa literalmente fio vermelho, se tornou popular no mundo, mesmo que a versão mais conhecida seja a japonesa devido sua aparição em animes e até em música .
Diz a sabedoria oriental que “um encontro é um acaso, mas um reencontro é destino”. Segundo a lenda chinesa, todos somos conectados por um fio vermelho, amarrado ao tornozelo ou no dedo mindinho, àquela pessoa a qual estamos destinados a amar.
Akai Ito, para mim, nada mais é que uma versão linda daquele ditado popular: todo mundo tem uma metade da laranja. E toda panela tem uma tampa. No caso da lenda, todo fio tem duas pontas. E só!

O "pra sempre" só deixa de existir quando você deixa de acreditar. - InuYasha- 


Frases relacionadas a lenda: 

"Um dia vamos encontrar onde o nosso fio vermelho termina, sem dúvida."


"Um fio invisível conecta os que estão destinados a conhecer-se Independentemente do tempo, lugar ou circunstância. O fio pode esticar ou emaranhar-se mas nunca irá partir."


31 de agosto de 2013

Primaverar

"Os poderosos podem matar uma, duas ou até três rosas, mas jamais poderão deter a primavera. " 



Era uma tarde de outono e as arvores saudavam as ruas de uma pequena e movimentada cidade do interior com o que tinham. 
Folhas, flores e botões transformava a passagem acinzentada em um tapete colorido. E na frente das casas, o rosa das flores dos Ipês contrastava com o alaranjado das folhas que começavam a secar em uma mistura feita pelo vento que soprava naquela época. 

Um vento leve, uma brisa vinda do norte que parecia avisar que cada pedaço daquele lugar coberto de cimento e pedra não tardava renovar. Que a primavera seria a estação de quem estava disposto a ver no oposto alguma semelhança. Que os conflitos cessariam em cada canto e que tudo ali pararia para observar nos jardins de cada lugar o nascimento das novas flores, o cantarolar dos pássaros e o balé que as borboletas traziam de graça e com graça a quem quisesse e pudesse ver. 
Coisas pequenas e despercebidas em meio a tanta movimentação dos seus moradores. Mas capazes de trazer um espetáculo gratuito que depois tantos artistas dali tentariam reproduzir através das músicas, pinturas, danças, esculturas e filmes que seriam vendidos a preço de papel e pão.

E no fim da tarde, o pôr do sol saudaria cobrindo o céu de dourado e a plateia que estivesse nos portos e praias da região anunciando a noite e os mistérios que só ela traria. 
Afinal, os mais antigos do lugar acreditavam até com alguma sabedoria,  que nesses pequenos momentos o Deus em que depositavam sua fé, dava a eles uma amostra de sua existência.

16 de janeiro de 2013

A lenda da coruja branca


As corujas trazem consigo diversos significados, mas, o mais fortes deles é o de mau presságio devido o seu pio assustador que muitas vezes cortam o silêncio da madrugada. Porém, também são vistas como simbolo de mistério e da filosofia, por serem consideradas na mitologia como sábias. E por terem tantos significados são personagens de diversas lendas como esta abaixo.

Uma estradinha de terra vermelha cruzava a imensidão de pés de café sob uma fina e compacta poeira. Pela estradinha uma carroça em alta velocidade parecia querer vencer o tempo e a velocidade.
E não era pra menos, na carroça viajava a velha parteira dona Irina, que fazia de sua vida o esforço para trazer ao mundo mais uma criança.
Dona Irina como era conhecida tornou-se a líder espiritual daquela região, viajava por entre os benzimentos e os conselhos. Cuidava para que as crianças viessem ao mundo através de suas mãos. Uma mulher forte, intrigante, misteriosa. A sua fé conduzia os pensamentos das mais diferentes opiniões. Pra alguns, uma bruxa ligada aos feitos sombrios dos rituais e de magias. Pra outros, uma mulher abençoada por Deus.
Irina, não media esforços para ver seu povo bem. Cruzava noites em claro, não comia pra mais de vezes apenas para acalentar um pobre moribundo.
Lembro-me que meados do mês de agosto as tardes eram longas, os cafezais do norte do Paraná reluziam seu verde forte, imponente. Nas colônias os caboclos se agitavam para um ano farto e feliz. Naquele mês a cegonha tinha sido generosa, pois quatro mulheres que estavam grávidas deveriam dar a luz. Dona Irina já havia preparado todo seu aparato para a grande missão. Na fazenda do Taquaruçu, Dona Maria engravidou e daria a luz ao estripulento Inhá, na Fazenda São Vicente, Katarina pariria Toim, já na Fazenda Quebra Canoas nasceria o Mauro, filho do Léro-léro, enquanto que no vilarejo do Panema, dona Julia trraia ao mundo, Jubinha. Mas para Irina tudo se resolveria numa questão de fé, organização e um pouquinho de sorte. A vida caminhava lentamente como tudo naquela região. O rio Engano abastecia as pequenas casas ainda de madeira, o João Preto ainda gargalava sua caninha, o Joaquim com seu radinho sofria com a fase ruim de seu time “ o Santos”. Tudo parecia na maior normalidade até que entrou pela vila na maior da correria o peão Agildo montado em seu pangaré rumando-se a casa da velha benzedeira. Ainda de sobre seu cavalo e muito afoito foi dizendo:
___ Corre dona Irina, pois o trem ta brabo lá na fazenda. Dona Maria parece que vai dar a luz e estão dizendo que dona Katarina, dona Julia e Bastiana também estão passando mal. Parece dona Irina que as quatro mulheres vão dar a luz de uma só vez.
___ Não se preocupe meu filho, há jeito pra tudo. Disse dona Irina com uma calma invejável. Acenou ao seu Zé que já vinha com a carroça arriada. Dona Irina juntou seus apetrechos de parteira jogou tudo dentro de uma mucuta, subiu na carroça e dirigiu-se rumo as fazendas.
Há tempo não chovia na região e naquele dia as pesadas nuvens pareciam programar uma tempestade. O vento já havia chegado fazendo da região um caldeirão de poeira vermelha cobrindo todo o céu. Era tanta poeira que o céu ficou vermelho, um cenário arrepiador.
Mas a velha parteira não se intimidava e cruzando aquela ventania empoeirada chegou a Fazenda Taquaruçu onde dona Maria já iniciava o parto. E foi assim, com sua calma e sua sabedoria popular que dona Irina trouxe ao mundo o forte Inhá. Sem perder tempo montou na carroça de seu Zé e rumou-se a Fazenda Dois Irmãos, onde Katarina sofria de dores com a chegada do garoto Toim. Enfim a chuva chegou, mas diante a alegria de ver a terra molhada novamente chegou também a preocupação, pois ventava muito, e como se não bastasse com a chuva veio o granizo. E agora, aquela que era uma empoeirada e seca estrada, se tornara em um escorregadio e intransponível mar de lama. Mas para a velha guerreira, só Deus a impediria de ver mais um rebento chegar ao mundo.
A chuva era muito forte, o vento jogava a carroça de um lado paro o outro, mas não demorou muito a Fazenda Quebra Canoas recebia a visita da velha parteira. E foi assim que Mauro veio ao mundo para somar mais um encapetado caipirinha naquelas bandas.

Os sinais de cansaço já incomodavam a mulher, mas ainda havia uma criança para vir ao mundo, e ela não poderia falhar. Aconselhada a esperar a chuva passar, ela não se intimidou dizendo:
___ A natureza não espera, e eu também não. Dizendo assim já estava sobre a carroça e chamando pelo velho Zé.
A chuva não dava trégua, o vento aumentava, o granizo caia com pedras lançadas por estilingues. Mas a missão precisava ser cumprida.
O velho burro que puxava a carroça já não resistia mais. E ao passar pela ponte branca do rio Engano o animal escorregou-se na lama da estrada vindo a lançar a carroça contra um barranco. Dona Irina e seu Zé foram jogados fortemente contra a mureta de proteção da ponte. Seu Zé nada sofreu, mas a velha parteira por ter batido com a cabeça, ficara por alguns minutos desacordada e quando voltou a consciência notou um corte profundo na altura do supercílio. 
Dona Irina arrancou de dentro da mucuta um lenço, enrolou na cabeça, pegou o velho Zé pelo braço e rumou-se a casa de dona Julia.
Cambaleou, mancou, quase se rastejou, mas em pouco tempo batia a porta da casa da mãe em trabalho de parto.
E não demorou muito se refez, e entre um carinho e outro ao corte do cordão umbilical a velha parteira trouxe ao mundo o moleque Jubinha.
Dona Julia abraçava pela primeira vez a sua cria, enquanto no fundo da sala de piso de assoalho dona Irina fechava os olhos e ali mesmo nos braços de seu companheiro, morria.
Porem, diante a bondade daquela vivente, os deuses não permitiram que ela simplesmente se fosse como um ser comum. A chuva cessou, nenhuma pedra de granizo mais caiu. O céu tornou-se límpido e de um azul estonteante.
Foi assim diante deste cenário e ao som do choro do recém nascido que uma luz vinda dos céus entrou pela janela daquela casa, cobriu o corpo já inerte da velha mulher e numa misteriosa metamorfose a parteira foi se transformando numa imponente e linda coruja branca.
E desde este dia, ela vive pelos sertões do Paraná num voo solitário, cortando o silencio da madrugada e anunciando a chegada de mais um bebe.